Parditude, Agendamento e Poder
O Que o Caso Beatriz Bueno revela sobre a Universidade Brasileira
O caso recente envolvendo Beatriz Bueno e seu desligamento/jubilamento do PPCulT (UFF) virou, em poucos dias, um desses episódios-limite que expõem algo maior do que uma disputa interna: expõe como a universidade decide o que pode existir como debate legítimo — e o que será tratado como “risco moral”.
Beatriz descreve um ambiente de hostilidade, perda de bolsa, ausência de transparência e deliberação de jubilamento sob aplausos. A universidade nega perseguição ideológica e afirma que o desligamento seguiu normas institucionais, apontando descumprimento de regras acadêmicas. Professores universitários sublinham com estranheza a celeridade da expulsão após reiterados relatos de assédio moral, perseguição e abandono pelo próprio orientador.
O ponto decisivo é entender por que cada vez mais alguns temas são tratados como ‘tabu’ na universidade, e o que pode se abstrair disso.
Parditude não é “só mais uma identidade”
A “parditude”, nesse contexto, não é apenas uma etiqueta identitária a mais — ela funciona como um teste de realidade para a universidade. Porque ela força o campo a olhar para uma camada massiva da população brasileira que não cabe facilmente no esquema bipolar importado de certos repertórios internacionais.
Ao recolocar o pardo e suas variações regionais (caboclo, moreno, mestiço) no centro, a “parditude” desestabiliza uma gramática já consagrada: aquela que, para operar com eficiência político-moral, prefere fronteiras rígidas e sujeitos bem delimitados. E é justamente aí que surge a reação: não se enfrenta a hipótese, tenta-se desqualificar o lugar de fala, imputar intenção, reduzir o debate a “desvio” — como se nomear o entre fosse, por si, uma transgressão.
Isso é especialmente relevante no Brasil porque a ideia do “entre” não é invenção recente: ela aparece na história social do país, nas formas populares de autodescrição, na linguagem cotidiana, em décadas de literatura, música e memória familiar. A “parditude” toca num nervo real: a experiência concreta de milhões de brasileiros que não se percebem como encaixe perfeito em caixas rígidas.
O Agendamento: Quem decide o que “conta” como Ciência?
A dimensão mais dura do caso é esta: ele ilumina o agendamento — o poder de selecionar quais categorias serão tratadas como legítimas, quais perguntas serão autorizadas e quais temas virarão tabu. E aqui vale trazer Pierre Bourdieu e Loïc Wacquant, quando analisam a circulação internacional de ideias e o modo como certos vocabulários viajam com selo de prestígio, convertendo-se em ortodoxia: é uma forma de imperialismo cultural que não precisa de censura explícita para funcionar; ele opera pela consagração, pelo prestígio e pela dependência dos circuitos acadêmicos.
Isso lança luz sobre a dimensão mais profunda do problema: agendamento e poder. A universidade não apenas estuda discursos — ela legitima discursos, decide quais categorias são “científicas”, quais vocabulários são “aceitáveis” e quais temas devem ser tratados como ameaça moral. Esse mecanismo não é neutro: ele se vincula à colonização contemporânea da produção de conhecimento, na qual certos centros de prestígio internacional definem a língua legítima do debate e as periferias reproduzem essa língua para manter reconhecimento, recursos e posição. É assim que o imperialismo cultural opera: não como censura explícita, mas como regime de consagração, no qual aderir ao repertório dominante vira condição de pertencimento — e contrariá-lo vira risco de punição simbólica (ou institucional). Quando a universidade passa a funcionar assim, ela deixa de ser espaço de pesquisa e vira aparelho de ortodoxia, onde divergência é tratada como perigo moral.
E aí entram três razões — simples, mas decisivas — para entender por que tanta gente dentro do sistema reage com pânico ao tema.
A universidade abriga um paradoxo que já virou rotina: ela se apresenta como espaço de pluralidade, mas opera com temas e identidades tabu — quetsões que não se estudam com a seriedade e a serenidade necessárias, que não são tratadas como objeto legítimo, porque entram no terreno do “perigo moral”. Há identidades que só podem aparecer para serem desconstruídas, nunca para serem compreendidas. É assim com a masculinidade, frequentemente tratada não como uma experiência humana complexa (com deveres, perdas, ritos, fracassos, responsabilidades), mas como suspeita em si, um tema que a academia aborda mais para vigiar do que para investigar. E é assim também com identidades mestiças, pardas e caboclas, com identidades regionais e, no limite, com a própria ideia de uma identidade brasileira: em vez de entrarem como problema sociológico vivo — aquilo que organiza pertencimento, linguagem, memória e forma de vida — são empurradas para o canto como “mito”, “ideologia” ou “resíduo”, existindo apenas como algo a ser corrigido. O resultado é um campo empobrecido e desconectado da realidade popular, onde certos sujeitos viram objeto proibido, e certas experiências só são aceitas se vierem acompanhadas de um pedido de desculpas.
Admitir o agendamento é admitir dependência
A universidade brasileira gosta de se imaginar como “vanguarda crítica”, mas muitas vezes opera como periferia consagradora: importa vocabulário com selo externo e depois usa esse vocabulário como prova de superioridade local. É o circuito de prestígio descrito por Bourdieu/Wacquant: ideias circulam com “carimbo”, e esse carimbo organiza hierarquias internas.
Assumir que há agendamento — que certos conceitos chegam com força institucional, editorial e reputacional — é admitir que nem sempre estamos produzindo debate livre. Às vezes estamos reproduzindo uma norma global para garantir posição num mercado simbólico.
O discurso hegemônico virou identidade profissional
Em certas áreas, o pertencimento ao “campo” já não se mede por método, evidência ou coragem intelectual, mas por alinhamento de linguagem. Quem recusa uma palavra-chave, quem questiona um enquadramento, quem introduz uma categoria que reabre o debate vira ameaça ao consenso. Não se discute apenas “se é verdadeiro”; discute-se “se é permitido”.
E quando o permitido vira requisito de pertencimento, a universidade deixa de formar pesquisadores e passa a formar guardas de fronteira.
Porque o tema do mestiço desorganiza hierarquias internas
A categoria “pardo” (e suas variações regionais, como “caboclo”) não é só problema analítico: ela é problema de poder distributivo — decide reconhecimento, fala autorizada, lugares simbólicos, prioridades, acesso a recursos, e também o modo como grupos se organizam como “sujeitos” dentro da política e dentro do campo acadêmico.
Quando alguém tenta reintroduzir o “entre” como questão legítima, mexe em estruturas já estabilizadas. Por isso, a reação tende a ser desproporcional: não é uma discordância; é um risco de reconfiguração.
A ‘americanização’ do debate racial no Brasil não é um tema marginal
Além de Bourdieu e Wacquant, esse tema — a circulação transnacional de vocabulários e “réguas” de classificação que vêm do circuito acadêmico e político norte-americano — já foi discutido por vários autores que analisam o debate racial brasileiro por dentro. Edward Telles, por exemplo, tratou explicitamente do papel de fundações e redes internacionais na conformação de agendas e enquadramentos sobre raça no Brasil, mostrando como certos problemas ganham centralidade e outros perdem espaço conforme o ecossistema de pesquisa, financiamento e prestígio. João Marcelo Maia e Gustavo Mesquita, em chave de história intelectual, também analisam a inserção brasileira em circuitos internacionais (incluindo o contexto da Guerra Fria cultural) e como isso influencia temas, prioridades e linguagens autorizadas no campo.
E há ainda autores que discutem as consequências conceituais e políticas dessa “importação de gramáticas” quando aplicadas ao caso brasileiro. Peter Fry é uma referência central ao problematizar a tentação de traduzir o Brasil por um modelo rígido, destacando como classificações oficiais e disputas públicas podem reordenar identidades e fronteiras num país marcado por gradações e zonas intermediárias. Mesmo quando há divergências de conclusão entre esses autores, o ponto comum é claro: a questão da circulação internacional de conceitos — e de como ela redefine o que conta como linguagem legítima — está longe de ser um delírio marginal; é um debate já consolidado e documentado.
Parditude, agenda de poder e a universidade como dogma
A perseguição (ou a tentativa de silenciamento) à “parditude” não é apenas uma briga de rede social ou um episódio isolado. Ela se encaixa numa agenda de poder consolidada na universidade brasileira — especialmente em certas áreas das ciências sociais — que funciona assim:
1. Dependência e colonialismo do conhecimento: a legitimação acadêmica se ancora em circuitos de prestígio que premiam a importação de certos vocabulários e punem o que não cabe neles. Admitir agendamento é admitir dependência — e a dependência é o segredo mal guardado do nosso “cosmopolitismo” acadêmico.
2. O caso “parditude” é significativo porque tenta devolver à academia uma percepção consagrada fora dela: uma forma brasileira, histórica e popular de se perceber — com gradações, misturas, regiões, famílias, trajetórias. A universidade, que deveria ser capaz de suportar complexidade, reage à complexidade como se fosse heresia. E isso diz muito: em vez de pesquisa, dogma; em vez de pluralidade, exclusão.
Na prática, através desse episódio, a universidade brasileira se consagra como a imagem e semelhança daquilo que ela jurava combater: dogma, perseguição de ideias e sobretudo, a manutenção de privilégios.
Referências:
BOURDIEU, Pierre; WACQUANT, Loïc. On the cunning of imperialist reason. Theory, Culture & Society, v. 16, n. 1, p. 41–58, 1999. DOI: 10.1177/026327699016001003.
CANCELLI, Elizabeth; MESQUITA, Gustavo; CHAVES, Wanderson. Guerra Fria e Brasil: para a agenda de integração do negro na sociedade de classes. São Paulo: Alameda, 2020.
CANCELLI, Elizabeth; MESQUITA, Gustavo; CHAVES, Wanderson. Foundations, US Foreign Policy and Anti-Racism in Brazil: pushing racial democracy. London: Routledge, 2023.
FRY, Peter. O que a Cinderela negra tem a dizer sobre a “política racial” no Brasil. Revista USP, n. 28, p. 122–135, 1996. DOI: 10.11606/issn.2316-9036.v0i28p122-135.
MAIA, João Marcelo Ehlert. Ciências sociais e Guerra Fria: as fundações norte-americanas e a agenda racial no Brasil. Revista Brasileira de História, v. 44, n. 96, e275583, 2024. DOI: 10.1590/1806-93472024v44n96-06.
PEREZ, Rodrigo. Perseguição política e violência ideológica na universidade pública brasileira: o caso Beatriz Bueno. Revista Fórum, [s.d.]. Disponível em: (link informado pelo autor). Acesso em: 25 jan. 2026.
SAUNDERS, Frances Stonor. Who paid the piper?: the CIA and the cultural Cold War. London: Granta Books, 2000.
TELLES, Edward E. US Foundations and racial reasoning in Brazil. Theory, Culture & Society, v. 20, n. 4, p. 31–48, 2003. DOI: 10.1177/02632764030204003.



Muito bem embasado o texto, o que é necessário em um debate que ocorre no campo-minado deste tema e de outros, pois esses conceitos valem para outros 'tabus'. (Impressionante como instituições científicas podem ter pactos tão primitivos como são os tabus e em tantos assuntos, né?). Vou guardar pra ler de novo. Parabéns.